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Casas modulares e armas de fogo ‘faça-você-mesmo’: os projetos e dilemas da nova cena Maker

                                (Foto: Divulgação)

 

“Se você não pode abrir, não é seu”. Esta máxima é filosofia central da cultura Maker, um movimento formado por engenheiros, amadores e entusiastas que milita a favor do hardware aberto, por tecnologia que não esteja na mão de um punhado de empresas do Vale do Silício e pelo simples prazer de construir coisas. Com um braço no Do-It-Yourself e outro na cultura hacker, os makers usam impressoras 3D, código aberto e chips Arduino – facilmente acessível e de preço baixo – para fazer seus próprios gadgets. E não estamos falando dos foguetes e aviões miniatura dos velhos seriados americanos, mas sim de tintas condutoras a plástico biodegradável – ou, como poderia sugerir a maker portuguesa Catarina Mota, até sua própria moradia.

“O que estamos fazendo é desenhar casas ecológicas, para resolver não só problemas econômicos, mas também ambientais”, diz Catarina, fundadora e diretora executiva do Open Building Institute, uma empresa que desenvolve soluções de moradia sob o seguinte set de regras: “Que sejam modulares e que possam ser construídas por pessoas sem experiência e sem ferramentas especializadas, só com uma serra, um virabrequim e um martelo. Que sejam construídas rapidamente e que tenham poucos custos de manutenção e que toda manutenção seja possível para o próprio dono da casa”, explica Catarina. A estrutura base de uma morada Open Building pode ser erguida em cinco dias, com mais três meses para montar e encaixar alguns três cômodos. 

Até o momento, a ideia já desaguou em alguns projetos de fato: em outubro de 2013, a equipe ergueu uma versão limitada da casa modular no Missouri, EUA, com 13,4 m², um loft, cozinha e banheiro. No ano seguinte, ela foi sendo expandida com novos cômodos, que podem ser encaixados e cambiados livremente (cada parede tem um compartimento fechado que pode servir como porta). Em 2015 a ideia evoluiu para incluir uma estufa hidropônica vizinha. E sim, você pode abrir e mexer em todas elas. “Por exemplo, toda a canalização das casas é feita num canal que vai ao longo da parede, que pode ser aberto”, explica. “As paredes abrem. Todas elas abrem. Se é preciso mudar alguma coisa, não é preciso quebrar nada.”

Catarina Mota (Foto: Divulgação / Red Bull Station)

 

A ideia surgiu de uma necessidade básica de Catarina Mota quando se mudou para os Estados Unidos com o esposo: ter um teto. “As casas que estão no mercado não serviam porque eram muito pequenas ou muito grandes, ou muito caras ou muito longe. E então chegamos ao ponto de eu própria ter que aprender a construir uma”, comenta. A aquisição de um terreno foi “complicado, mas, por outro lado, não tão complicado”, diz. “É muito díficil comprar um terreno em São Paulo, ou um em Nova Iorque. Não é complicado comprar um terreno no meio do nada, que é onde nós estamos. Foi essa opção que nós fizemos. Compramos um terreno numa zona rural, mas que está a uma hora do aeroporto. E eu moro numa cidade grande. Então temos esse acesso, sempre. Além do quê, criamos nosso próprio negócio, que nos permite viver aqui.”

Construindo o futuro

A peça chave do movimento, para Catarina, é a variedade. “Eu penso que o maior impacto social [da cena Maker] não é só a questão psicológica da participação. É que o que as pessoas produzem é diferente”, explica. “Eu imagino que o mundo material e as tecnologias vão ser muito mais representativas da diversidade do que são atualmente.”

Estufa hidropônica (Foto: Divulgação)

 

Por outro lado, se há algo que a tecnologia foi incapaz de fazer por nós é diminuir jornadas de trabalho. Passamos tanto ou mais tempo em escritórios, galpões e oficinas do que 30 anos atrás. Segundo relatório do Fórum Econômico Mundial, nos próximos 4 anos, robôs vão criar 58 milhões de postos de emprego a mais do que os que serão extintos pela automação. Sentar em um canto para montar sua própria impressora 3D, nesse contexto, não é moleza, e talvez não vá continuar sendo. “Eu acho que andamos muito, muito ocupados. Que trabalhamos muito, mas que não precisamos. Eu acho que trabalhar muito também é cultural”, confessa Catarina.

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Além do quê, andamos mais motivados em aprender código do que montar coisas: “O hardware tá agora na fase primitiva, em que estavam os computadores pessoais, os PCs, nos anos 70”, explica Catarina. “Porque ainda não temos em casa as ferramentas  necessárias para criar hardware. É materialmente e economicamente mais difícil.”

O ‘criar por criar’ e canos (plásticos) fumegantes

David Li oferece uma outra abordagem do movimento – e do outro lado do mundo. David é uma cria do rompimento da bolha da internet nos anos 90, e depois de erguer e ver falir sua empresa de web em 1995 nos Estados Unidos, voltou ao seu país natal para abrir o primeiro espaço Maker da China, o Shenzhen Open Lab, em 2010. Pesquisador residente da cidade de Shenzhen, um dos mais efervescentes pólos de inovação do mundo, Li acredita que o movimento Maker é “a força de resistência vinda das ruas”, que tem o potencial de “concretizar a promessa da internet como uma equalizadora de oportunidades”.

David Li (Foto: Divulgação / Red Bull Station)

 

“Muito disso vem de reimaginar nosso relacionamento com a tecnologia”, diz o pesquisador. “Um exemplo é o smartphone. Em muitos lugares as pessoas vêem a fabricação de um celular como um ato tecnológico. Em Shenzhen, por outro lado, smartphone é commodity, como o grão do café”. No novo momento da cultura Marker, a questão já não é criar o smartphone, como não é plantar café. “É mais o que fazer com ele?”, explica David.

Para David, mais que um facilitador, o movimento pode ter impacto ecônomico relevante. Olhe novamente para o smartphone: “Se você considerar o anúncio [dos novos iPhones], a Apple desistiu de todos que não estejam nos Estados Unidos. É acessível apenas para o 1%, então há uma enorme oportunidade de mercado, que muitas companhias chinesas estão aproveitando – e muito do que elas fazem é montar celulares e tacar um logo neles. Por que você não pode ter startups brasileiras pensando ‘eu posso fazer isso também’?”

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Mas não se engane pelo ar otimista: David Li é um cínico. Um cínico com algum senso de humor, ainda por cima. “Alguém outro dia me perguntou qual a diferença entre um maker, um artista, um designer e um produtor? Bem, o produtor faz coisas que pessoas queiram comprar, o designer desenha coisas que as pessoas queiram usar, artistas criam para inspirar, e o maker gasta dinheiro do próprio bolso para fingir ser algum deles”.

Para David, portanto, mais do que montar, o importante é dar nova vida aos objetos, um “despertar no nosso papel na criação das coisas”, em suas palavras. Inteligência artificial, por exemplo: “Não precisamos de mais engenheiros trabalhando em IA. Precisamos sim de mais artistas, filósofos, para arrancar algo dela”, diz o pesquisador.

 (Foto: Reprodução/Instagram)

 

Nada exemplifica o lance da ‘criação pela criação’ do que uma história que tem colocado o lado mais negro do DIY em foco: a Defense Distributed, uma companhia non-profit americana responsável por criar a primeira arma de fogo funcional vinda de uma impressora 3D – e, com a disponibilidade gratuita do diagrama original pela internet, tem posto em xeque os limites da 2ª emenda da constituição americana. Para David, “isso tem mais a ver com essa obsessão ao redor da impressão 3D. A arma pode funcionar para disparar um único disparo, mas há uma boa chance que, se não for impressa corretamente, ela nem dispare ou exploda na sua maõ. Não é um produto funcional”

“É um bom tópico de conversa, mas não há qualquer significado. Em muitos lugares a questão não é imprimir a arma, mas onde conseguir a bala. Esta é parte difícil”, diz David. “Você pode imprimí-la, mas daí como arranjar pólvora. Não há qualquer implicação na vida real”.

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Os tênis da semana: quando performance e casual se misturam

O adidas Original Prophere é um bom exemplo de como os traços esportivos invadiram as linhas casuais. (Foto: Divulgação)

 

Já há algum tempo os tênis de corrida não são mais …

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‘Já fiz música para terminar namoro, mas não deu certo’, diz Jaloo

Jaloo veste Louis Vuitton (Foto: Pedro Dimitrow)

 

Cantor e compositor paraense, fez sua estreia nos cinemas no filme Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg, neste ano, enquanto segue na estrada com shows de sua turnê, Mestiço. As composições de Jaloo – seu primeiro disco, #1, data de 2015 –  formam singles visuais que unem moda e música. Assista a Say Goodbye, clipe gravado na Índia.

Com vocês, Jaloo. (Instagram: 96.676 seguidores / YouTube: 1.542.449 visualizações / Spotify: 114.791 ouvintes mensais*)

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GQ Brasil – Disco, digital, YouTube ou show?

Jaloo – Estou realmente mergulhado no mundo do streaming. E tomando ciência da biblioteca sonora que agora temos na ponta dos dedos, é incrível!

GQ Brasil – Música que você está ouvindo agora?

Jaloo – Aventura, Obsesion.

GQ Brasil – O featuring perfeito com você seria com quem?

Jaloo – Esse disco está me proporcionando muitos feats memoráveis, mas um que as fan bases sempre shipam e acho que seria lindo tanto visual quanto sonoramente é Grimes.

GQ Brasil – Um look ideal pra show seria?

Jaloo – Conforto e elegância!

GQ Brasil – Sua vida é um Instagram aberto? Comente?

Jaloo – Não mesmo. Mas não quer dizer que eu seja fake de algum modo, acho que me exponho até demais, às vezes… A questão é descansar a mente e seguir pleno, então. NÃO!

GQ Brasil – Pagaria para tocar nas rádios ou pagaria para ter mais seguidores?

Jaloo – Rádios! Sou filho de Francisco. (Risos)

GQ Brasil – Já escreveu música pra conquistar alguém? Deu certo?

Jaloo – Não, na verdade já escrevi para terminar, mas não deu certo também. (Risos) 

GQ Brasil – Um disco clássico? Um guilty pleasure?

Jaloo – Agora fodeu, porque eu não tenho vergonha de absolutamente naaada que eu escuto e o que acham duvidoso é que eu compartilho mesmo. Então, agora acho que é Kanye West né? (Risos)

GQ Brasil – Uma música pra cantar no banho?

Jaloo – Eu me sinto a Sia no banho quando toca Eye of the Needle.

GQ Brasil – Qual o verso mais sexy de todos os tempos?

Jaloo – “It takes courage
To enjoy it
The hardcore
And the gentle
Big time sensuality”

Stylist: Luiz Bonassoli. Grooming: Roni Modesto. Assistentes de Fotografia: Adrian Ikematsu e Thaisa Nogueira.
*Números de 22/10/2018

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12 points das ‘quebradas’ de SP que agradam os foodies mais exigentes

(Foto: Divulgação)

 

Yakisoba fusion com elementos da culinária nordestina; Corinthians e Palmeiras unidos no décor bar; bistrô-escola onde os cozinheiros são os alunos e, para surpresa de muitos…

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A cerveja é melhor onde a água é mais pura?

Cerveja (Foto: Getty Images)

 

Agudos e Petrópolis são cidades cervejeiras conhecidas pela pureza de sua água. É de se imaginar que a cerveja vinda dessas cidades seja a melhor do Brasil, certo? Não necessariamente.

“Claro, a água para fazer cerveja tem que ser potável”, explica Laura Aguiar, mestre cervejeira do complexo de inovação da Ambev no Rio de Janeiro. Mas pureza não é o x da questão: “A característica principal são os sais”, aponta a especialista. São eles os responsáveis por dar personalidade à bebida: “No caso de cervejas que são mais pesadas, a composição de sais é maior; quando você vai para cervejas como a Pilsen, mais leves e refrescantes, geralmente a gente usa uma água com menor teor de sais, porque eles tendem a tornar a cerveja mais adstringentes, fazê-las mais pesadas. Cervejas escuras usam uma água mais dura”, diz.

Então no lugar de pureza, vale considerar características como “dura” e “mole”. Estes são termos que giram em torno da água usada na produção da cerveja. Trocando em miúdos, a água mole leva menos sais minerais, a dura, conta com maior concentração desses compostos.

Se por um lado a pureza não é o único fator determinante, por outro lado, vivemos em uma era de manufatura inteligente e materiais processáveis – incluindo neste balaio a própria qualidade da água. “A gente geralmente divide antes e depois do século 20”, diz Laura. “Com o passar do tempo, a tecnologia de tratamento de água foi aprimorada. Isso pra gente é muito importante porque temos mais de 20 cervejarias espalhadas pelo país inteiro, e conseguimos fazer cada cerveja ter uma qualidade similar nesse departamento”.

Alambique instalado na Cervejaria Ambev em Agudos (Foto: Divulgação)

 

Considere que a cervejaria em Agudos tem sozinha capacidade instalada – um termo técnico para capacidade de produção – de 850 mil hectolitros por mês. Não dá para depender de uma única fonte natural perfeita para manter a produção a todo vapor.

Além do quê a lógica de produção hoje é completamente diferente de alguns séculos atrás. “A gente tem mais de 1300 análises ao longo do processo bioquímico, você tem o fermento agindo, então a gente consegue chegar a um alto nível de controle”, conta a mestre cervejeira, cuja formação também inclui engenharia de alimentos. “Quando as pessoas falam que a água é importante, sim é fundamental para fazer uma boa cerveja, mas não, não depende mais da sua origem”, diz.

Mas porque o mito segue vivo em botequins e mesas de bar? “Porque historicamente estilos de cerveja nasceram em regiões com certas características de água”, explica Laura. Ela corre na origem de certas variedades da bebida. Considere a Pilsen, por exemplo: sua origem vem da região homônima na República Tcheca, e foi primeiro criada pela combinação de malte e a água muito suave (ou muito “mole”) da região.

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O processo de tratamento, segundo Laura, é pensado para ter uma pegada ambiental mínima. “A gente devolve aos leitos água de qualidade superior, melhor do que a gente tirou do meio ambiente”, diz. Alguns números: segundo comunicado da Ambev, “a unidade encerrou 2017 com reaproveitamento de 99% dos subprodutos gerados na produção de cerveja, o que inclui a reciclagem das garrafas de vidro, a venda do bagaço de malte para ser utilizado como ração animal e o tratamento de efluentes. A estação da cervejaria de Agudos tem capacidade para tratar cerca de 3,7 milhões de m³ de efluentes por ano, o equivalente ao tratamento de esgoto diário de uma cidade de aproximadamente 630 mil habitantes – quase 17 vezes maior do que a população do município”.

Para curiosos, a empresa abriu neste mês a visitação gratuita da sua cervejaria em Agudos. Visitantes podem ver o processo produtivo de rótulos como Brahma, Antárctica e Skol, assistir a aulas sobre a história da bebida com mestres-cervejeiros, provar algumas das cervejas e aprender como harmonizá-las. Interessados podem se cadastrar no site oficial.